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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Descalço,

Piso o frio gelado deste chão mapeado, a cada passo estranho o sentir a ausência de protecção, completamente despido de aparências, frágil e confiante, cabeça erguida, peito cheio, ombros para trás e o olhar perdido no horizonte.

A distância percorrida é delimitada por um muro de experiencias vividas que me impede de regressar, aos ombros as pessoas, os lugares e os momentos, sorrisos e lágrimas, gargalhadas e gritos, carícias e palmadas, beijos e pontapés, entro dentro de mim, percorro cada pormenor que me define, visito o núcleo pulsante da minha essência, fico sentado a ouvir cada pancada, vibro com as mudanças de ritmo, ouso uma aproximação tacteante, as mãos percorrem-me…o gesto faz-me balouçar num movimento absolutamente inebriante, como quem dança a musica do universo…abraço aquele músculo com tanta força que quase pára. Saio cambaleante, pelos caminhos de mim entro na cabeça…a velocidade das imagens é tão intensa que, aliada às explosões de luz, me fazem desligar o olhar, nesse exacto momento sou percorrido por um relampejar constante de memórias passadas, presentes e projecções do futuro de forma tão avassaladora que me faz desaparecer em mim…

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Viver...

Todos nós recordamos através de determinado perfume, musica, paisagem… coisas que, como uma poderosa máquina do tempo, nos Teletransportam para a felicidade de um momento.

Fecho os olhos e sinto o cheiro a café, na varanda da casa dos meus pais, era uma tarde quente recentemente baptizada por uma chuvada de verão, os meus dez anos faziam-me jogar à bola sempre, em qualquer lado…



Reclama a minha mãe com a quantidade de buracos nas sapatilhas recém compradas na feira.

O último de sete irmãos, mais pequeno e mimado de todos, a diferença de idade para os mais velhos, lançou-me num corrupio de encarregados de educação, e naquele tempo tínhamos a famosa “estalomotivação” que raramente funcionava. Confesso que até me comportava razoavelmente bem, os terrores da minha geração não me influenciaram, na escola apenas fui expulso uma única vez e já no secundário por algo que nem fui eu que fiz…

Os meus pais passaram por bastantes dificuldades, com tanta boca esfomeada era raro o pão e a sardinha, recordo apenas as palavras dos mais velhos que descreviam uma existência pobre, marcada pela fome, roupa maltrapilha, sapatos rotos…

O meu pai trabalhava na construção civil, andava sempre por fora e só vinha a casa ao fim-de-semana cheio de saudades da minha mãe (os métodos contraceptivos na altura eram caros), perdiam-se na conversa e passado nove meses lá vinha mais um, fui o último porque finalmente acertaram.